La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez

"Una realidad invisible anda por todo el subterráneo, cuyo estrepitoso negror rechinante, sucio y cálido, apenas se siente. Todos han desejado sus periódicos, sus gomas y sus gritos; están absortos, como en una pesadilla de cansancio y de tristeza, en esta rosa blanca que la negra exalta y que es como la conciencia del subterráneo." - La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Carta ao Zézim

(hahaha achei ótimo. Segue trecho de um longo e belíssimo texto de Caio Fernando Abreu)




Caio Fernando Abreu




Porto, 22 de dezembro de 1979




Zézim,




cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.


Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação:um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na CultUra, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Casamento

Adélia Prado



Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como "este foi difícil"

"prateou no ar dando rabanadas"

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.


Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Achados e perdidos

Todo mundo dizia que Valquíria era excêntria, uma pessoa assim como dizem, difícil de lidar. Ela bem sabia que a maioria das pessoas que diziam ou pensavam isso dela, mal sabiam o siginificado ou dimensão das palavras que pronunciavam. Ela sim. Sabia bem das palavras. Valquíria podia dobrar, recortar, multiplicar, multifacetar uma unica palavra, desdobrá-la em uma nova língua se fosse o caso. É isso! Ela tinha um caso de amor com as palavras. Mas caso era o que as pessoas gostavam de fazer com Valquíria. As vezes pouco caso outras muito, até demais. Mas de pouco em muito e de muito em pouco, Valquíria foi se acostumando com a pouca importancia dessas pessoas em sua vida. Bem, isso era o que ela gostava de dizer pra si mesma. Mas a verdade é que Valquíria sabia, que mesmo nao concordando com as ideias dessas pessoas, ela precisava delas. Nem que ao menos fosse como parâmetro para ela saber que era melhor. Não que ela fosse o tipo esnobe. Longe disso. No fundo ela não se achava melhor que ninguém, só diferente. Valquíria até era muito na sua, mas quando saía da sua não era pra pouca coisa não. Algumas vezes as pessoas achavam que ela era a mulher mais forte do mundo, as vezes, até ela acreditava por alguns instantes nisso...gostava mesmo que pensassem assim. Mas com o coração mareado ela bem sabia quão frágil era a menina lá dentro escondida, suscetível, exposta, encolhida a qualquer grito mais alto que o seu, a qualquer gesto mais forte que o seu. Isso bastava pra Valquíria se desmanchar igual sorvete esquecido na pia. Era assim mesmo que a menina tão forte e tão frágil se sentia de vez em quando, igual uma bola de sorvete de abacaxi, derrubada da casquinha. Eduardo chamava Valquíria de Val, dizia que era mais curto, mais fácil e gostava do som. Valquíria pensava e pensando se encaracolava pra longe muito longe e nesse longe, Valquiria ouvia o Eduardo chamando-a de Val. E Val lembrava válvula. É, ela achava mesmo que fosse uma válvula para as angústias do Eduardo. As vezes ela pensava que ele ficava com ela por comodismo porque eram tão diferentes.. Mas aí ela se encontrava nesse longe e lembrava que ele gostava do som de Val, mas então ela lembrava que Val parecia com tchau e ela achava mesmo que a qualquer instante eles iriam terminar. E aí Val, Valquíria... ficava triste, tão triste de murchar a alma igual uva passa. Valquiria não gostava de uva passa em panetone, mas ela gostava um bocado ao mesmo tempo em que ficava triste, em pensar que voltaria a ser dona do próprio nariz, igual chafariz de praça. Só que com essa mania de se perder nas palavras num longe quase infinito, ela já não tinha certeza do tamanho desse bocado que envolvia Eduardo.
Eduardo não se perdia nem longe, nem perto. Mas tambem nao se achava. Eduardo só se perdia quando Valquiria ameaçava largar ele. Mas tambem era aí que Eduardo se achava e botava pra fora uma réstia que ela gostava de espiar. E espiando lá se perdia Valquiria de novo nos seus longes alí, bem perto do Eduardo.
Ela queria tanto que ele se perdesse com ela só um pouco. Mentira! Ela queria que ele se perdesse um bom tanto com ela. Fora assim, numa perdição que os dois se apaixonaram. Mas o tempo passou... Valquiria decidiu que queria mesmo se perder nas palavras. Eduardo por um quê aqui por um quê lá, achou melhor ficar em terra firme e se achar nos números. Aquilo doía fundo no mareado de Valquíria. Mas quando fechava os olhos só via os dois, perdidos e separados. E quando Eduardo abria os olhos via os dois bem achados, sem riscos e juntos. Logo os riscos que enchiam a barriga de Valquíria de frios...logo os riscos!
Se Valquíria não era nem queria ser achada. Se Eduardo não queria mais se perder. Valquíria não sabia o que fazer. Ou até sabia mas não aguentava mais doer, porque quando ficava doída Valquiria nao se perdia mais, ficava grudada no chão emudecida de alma partida. Eduardo sabia o que não devia fazer, fazia mesmo assim, sem querer. Mas Eduardo não gostava de se pensar sem a Valquíria porque aí ele ficava todo perdido e isso dava um medo que gelava o umbigo do Eduardo e ele nao gostava disso não. Valquíria, assim sem saber..só sabia que tanto quanto sorvete de abacaxi, era indispesável sentir o umbigo assim, gelado. O tempo parou, Eduardo e Valquiria ficaram TiCtAcTeAdOs perdidos e achados.
Eduardo seguiu seu rumo metódico e trilhado já há um bom tempo nos números.
Valquíria se perdeu como nunca antes: viajou, sonhou, sofreu, viveu, correu, ficou sem grana, virou gente grande enlouquecida e nessa loucura encontrou um amor que a faz perder a cabeça todos os dias desde a manhã até a noite.
Valquíria e Gabriel se perdem, juntos, em devaneios deliciosos diários. Mas o que ela adora mesmo fazer é se perder nos olhos do menino...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A menina e a rosa

Sua rosa era vermelha. Cor viva que designava o ardor das paixões e o espesso e quente sangue que lhe percorria o corpo. As pétalas delicadas e aveludadas, de uma maciez que ao mesmo passo parecia frágil e extremamente densa na costura de sua tessitura.
Já havia sim apreciado o perfume de várias flores, mas sequer havia considerado a possibilidade de instaurar - como a brecha que faz uma faca ao dilacerar um corpo – a sensação de uma dependência assim nunca antes sentida.
Já na primeira vez que a viu, o vermelho intenso lhe corou a face numa quentura que começava pela ponta dos pensamentos, passava pelos fios de cabelos e nesse passeio chegava até a última ponta da última unha do último dedo do pé.
Depois do fogo vinha o vento que erguia todos os pelos e cabelos num arrepio infinito, como quem acaricia delicadamente um filhote. E dessa mistura de sensações brotou no coração indomável da menina um desejo e um medo sem tamanho.
Jamais suas vistas vividas avistaram antes rosa tão exuberante, até sabia que existiam outras parecidas, mas nunca antes uma num conjunto de toque, cor, perfume, ali tão perto, tão para ela.
Antes que pudesse duvidar, seu batimento cardíaco mais parecia titilar dentro de sua cabeça, tamanha voracidade a que se enraizava dentro de si. Quando posta assim, contra a parede pelos truques do destino, diante daquela rosa, imediatamente se entorpeceu e soube que tinha brotado dentro dela o desatino. Um carro contramão desenfreado, descontrolado que só sabia seguir em frente nessa insanidade deliciosa.
Sim. Mas nem só de delícias vive o desatino. E no momento seguinte ao entorpecimento a menina pensou logo:
-“E se eu não servir? E se ela não gostar de mim?”
Já perdera a conta de quantas voltas tinha dado o relógio durante as milhares de flores que apareceram para enfeitar e dar corda ao seu caminho. Ela até botava reparo em uma aqui e outra ali, mas a verdade é que nunca tivera disposição para cuidar de nenhuma delas. Ou enjoava logo do perfume, ou achava-as muito metidas, chatas; cansavam suas vistas pelo excesso de cores ou pior – por só saberem viver num entediante clichê mais detestável que o preto e branco: o cinza.
Sim, porque o cinza era das cores a mais fraca, era a que ficava sempre em cima do muro numa melancolia besta. Preferia mesmo era deixar o cinza para os dias de chuva, mas algumas flores eram tão bobinhas que não entendiam a maestria da chuva e se pintavam de cinza apagando a própria cor só para agradar a menina. E isso dava um cansaço danado nela, uma vontade de cortá-las fora.
E era mesmo o que ela acabava fazendo. Se as flores insistiam em aparecer em sua porta, ela dava um jeito logo de pegar a tesoura e dar um fim naquele brotamento. É por isso que gostava tanto das amigas pimentas e espadas de São - Jorge que além de devolverem vida à menina, protegiam-na e alegravam sua casa.
No entanto, aquela rosa tão imponente em sua beleza radiante a seduzira no exato instante em que olhos e pétalas se cruzaram. Estava decidida a tomá-la para si e assim cuidá-la com a devida atenção até o último de seus dias. Não saberia quanto tempo viveria, nunca quisera uma vida longa, mas olhar para aquela rosa era tão prazeroso que desejava trapacear o tempo para ganhar mais desatinos ao lado dela.
Foi nesse dia que a menina descobriu que tinha um coração desembestado. Foi por conta da rosa que ela sentiu todos os cheiros e gostos e toques do mundo inteiro ao mesmo tempo deixando-a com uma falta de ar exacerbada e um frio na barriga de quem pula lombada alta. E nesse caleidoscópio imagético de vivências e experiências, foi se tornando refém desse quase culto à rosa. Não. Era mais que uma devoção, era um amor de amantes cúmplices, desses amores em que palavras tão pouco bastam como são desnecessárias. Os olhos sim tagarelam sem parar por horas a fio enquanto o amarelo dos fios do cabelo da menina passeia pelo vermelho das pétalas da rosa.
E eis que dessa mistura de cores nasceu um amor como nunca antes visto, um amor tão fundo que não se sabia mais onde começava a menina e onde terminava a rosa. Ela chamou-a Zeus como a imponência do deus grego. E assim como os amantes gastavam horas a admirar a lua, a menina dedicava todos os versos e suspiros à rosa – Zeus. E dessa forma foram vivendo, juntos, menina e Zeus, felizes durante um tempo incontável.
E lá vem novamente o desatino descompassado atrás do amor. Como todo amor impossível de filme e livros, o amor dos dois também teve sua tragédia. Um dia a menina, que só tocara as pétalas de Zeus, teve muito medo de perdê-lo e num surto de insegurança e angústia agarrou com todas as suas forças a rosa e sentiu uma dor aguda dessas que fazem a gente perder o controle sob essa água salgada que salta dos olhos. Gota a gota, como trapezistas, as lágrimas foram pulando e descendo como que num escorregador gigante a face rubra da menina.
Zeus, petrificado por ver ferir sua amada só fazia chorar um desespero angustiante que partia o coração de quem visse a cena. Seu perfume inebriante se transformara, assim, num odor nauseante e ao passo que chorava, desbotava e o vermelho espesso escorria por seus espinhos misturando-se com o sangue da menina.
Zeus tinha agora um amarelo envelhecido. O velho amarelo que se costuma adquirir só com muito tempo. Com ele, ganhara a maturidade de quem valoriza uma preciosidade como o que vivia naquele momento. Sabia bem que se por ventura o destino lhe arrancasse a menina de suas pétalas jamais encontraria outra “dona” por quem viesse a desbotar.
O desatino - sentindo-se culpado pela dor da menina e pelo desbotamento de Zeus - recorreu ao sol e a lua e pediu que misturassem respectivamente sua quentura e frieza num pó mágico capaz de transformar a menina. A dor dos espinhos rasgando sua pele fora tanta que antes mesmo de sentir-se culpada ou triste, adormeceu, assim, com os espinhos fincados em suas mãos.
Ouviu ao fundo um flamenco espanhol que lhe devolveu quentura ao corpo - o desatino quando quer agradar, leva as loucuras às últimas conseqüências - ela podia bem reconhecer esse seu companheiro de longa jornada. Também ela gostava de flertar com a insanidade, a realidade às vezes era muito chata para se viver e muito dura para se agüentar. É claro que isso era só de vez em quando, não podia se dar ao luxo de enlouquecer, tinha muita coisa para dar conta antes disso.
Sentiu um pó em seu nariz que a fez espirrar. Espirrava com freqüência, isso era certo, mas esse espirro a fez acordar de supetão e antes que pudesse pronunciar qualquer palavra se dava conta de que havia se transformado em rosa. Uma rosa vermelha, imponente e exuberante tal qual seu amado Zeus.
Mas o sol e a lua perceberam que agora os amantes não podiam se tocar e teriam de conviver com a desgraça da saudade por toda a eternidade. Sendo assim, sol e lua que bem entendiam do mundo dos amantes, entraram num novo acordo onde por todos os dias de todos os anos que os amantes vivessem: sol regeria as 12 horas diurnas e lua as 12 horas noturnas banhando o casal com um manto de luz e calor.
Quando pela primeira vez menina e Zeus se tocaram como homem e mulher, tiveram a certeza de que jamais, jamais se separariam com ou sem espinhos, com ou sem desatino, com ou sem sol e lua, porque mais forte e maior do que qualquer coisa que existisse em toda a metafísica ou racionalidade era a plena sensação de uma felicidade incomparável e indescritivelmente quente com menina e Zeus, juntos.
Quem via a história de longe não entendia mesmo muito bem e achava tudo uma doidice descabida, mas tudo bem... Era assim e por isso mesmo que a loucura de um amor eterno e cúmplice era destinado às poucas criaturas que fossem fortes o bastante para se deliciar com a insana quentura da paixão sem se consumir por completo, pelo contrário, se revigorando a cada nova faísca.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

pra Mim

Exausto

Adélia Prado






Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Pro Zeh II - che è il sole del mio mattino.


    "M’illumino / D’immenso."

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pro Zeh, minha felicidade toda!


"Tenho medo dessa felicidade toda... Parece que a gente quer desafiar o mundo" - Letícia Sabatella

"A gente vai ganhar do mundo" - Wagner Moura

Experiência

Os pés brancos e macios do inverno estavam agora despidos, murchos, pele fina caminhando sobre aquele amontoado de pedregulhos que iam aos poucos perfurando as camadas da epiderme, manchando o que antes era um monocromático marrom, agora, de um vermelho vivo, perfumado.
Não pensava na dor, a dor maior não era a física, essa bem sabia que passaria, com mais ou sem demora. Difícil era sangrar por dentro. Seguiu naquela peregrinação solitária sem a demanda da platéia para testemunhar um auto-flagelo, a penitência era aquietar sua angústia que ladrava, esperneava, rangia os dentes da boca do estômago, perfurava todos os órgãos internos – um a um – lentamente, numa morte assistida e sem cura.
A cura era a morte, a morte apenas. É na morte que se depara com o clarão do mundo, com a grande verdade, com cálice sagrado e os segredos da humanidade, com as respostas para todas as perguntas perseguidas ao longo dos anos – sejam muitos ou poucos – vividos, mas o certo, é que provavelmente o que se verá é um hediondo, besta: NADA, gigante, gargalhando, cuspindo saliva na face de quem o encara.
Caminha-se e busca-se a vida toda, entre o bem e o mal chegar ao dia em que nos depararemos com a verdade e ei-la: o absoluto nada. E ao contrário do senso comum, pior que sentar no colo do capeta é não ter no que se agarrar, entre céu e inferno, entre os piores pesadelos, há uma coisa aterrorizantemente pior: o nada. Só o nada nadifica. Disso bem sabia... Entre voltar à origem preferiu a cegueira. Deu um passo para trás e assim refez todo o caminho de volta, cabisbaixo, recolhendo gota-a-gota, titilando em seus ouvidos, aquilo que já não estava mais ali. Já não era.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Assinalado - Cruz e Sousa

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu΄alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és poeta o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco…

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Set 1 - Gravando...

Penso que enceno o espetáculo da minha própria vida mesmo sem nem sempre concordar com os sets, cenas, falas, figurinos, personagens... Mesmo tendo total noção da dimensão das desgraças cotidianas, (e meu filho, não são poucas!) pelo menos, me sobra humor (sabe Deus de quem herdado!) para driblá-las e sacar um deboche pra cima do destino. Digo isso, em primeiro lugar, porque muitas vezes ajo como se não fosse eu mesma, me comporto como outro a ponto de esquecer, de desmemoriar-me!


No entanto, essa é a primeira vez. A primeira vez que algo tão bom acontece a ponto de me deixar petrificada, desconfiada, com um elefante atrás da orelha. Será pegadinha? Ô diretor: FAREI GREVE!

Pensando sobre o ocorrido cheguei a alguns pontos... Será possível que ao nos calejarmos com os infortúnios acumulados ao longo das primaveras nos desacostumamos com esse sentimento de alegria plena (se é que um dia tive tanto que pudesse me ACOSTumar com tal), e portanto, nosso corpo, mente, emoções, instintos, personalidade, feeling não o reconhece (mesmo apreciando infinitamente) e acaba ficando triste? Será que felicidade em demasia para quem sempre se ateve a negatividades, para quem sempre foi âncora, estepe pra tirar os próximos da lama, chegaria a virar tristeza? Pois creio que sim, porque assim me sinto. Ou melhor, sequer me sinto. AMORteço-me embriagada nessa poção deliciosa.

Quando e como nos damos conta de que alguém consegue nos transformar em tão pouco tempo? Não transformar no sentido de mudar a pessoa que se é pra ser outra em prol de alguém. Transformar a ponto de nós mesmos nos sentirmos em outro corpo, nos sentirmos leves, em paz, amando. Não sei, também, pouco importa, não mais questionarei, me entregarei e apenas aproveitarei essa maré de sorte!

É... o amor é brega. É colorido. Constrange, anima, desespera, enlouquece, transforma. O amor é química, é ebulição, é fogo. O amor quando se inicia é indomável, é um constante de frios na barriga, é desassossego, é olheiras que se arrastam na face do amante por perder horas e horas pensando na saudade, na distância do ser em questão.

O tempo também funciona diferente no mundo dos amantes, porque o tic-tac é dado a dois, a passos largos, à taquicardia, mas tudo a dois. Se sofrerem, sofrem juntos, se são felizes, extasiados com o elixir do amor, desfrutam juntos. O bom do amor é que nessa matemática, somando-se dois, tem-se um.

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