Ourives sempre fora um menino quieto. Sentava-se todo dia às 18h, assim, logo no finalzinho do dia e parava bem quieto, mais ainda que de costume, para ouvir o derreter do sol se desmanchando no horizonte.
Acreditava que o sol era feito de ouro, e, portanto, a cada dia ao derreter, caíam gotinhas lá de cima em pingos de ouro cá no chão. E era desses pingos que surgiam os anéis, os brincos e as correntes. Bem, isso era o que o menino pensava!
Ourives pensava muito. E pensava tanto que pensava alto, e quanto mais pensava, mais corda dava pro pensamento que levava ele pra longe, longe sem sair do aqui e do agora. E esse trajeto dava um cansaço danado no menino, que ele ia ficando assim, murchinho, encolhido e acabava que não falava nem saía mais do lugar.
Os pais do garoto achavam que ele era triste ou que tinha problemas mais sérios. Levaram o pobre de lá pra cá, de cá pra lá de um lá a um cá de dar dó. Os médicos davam explicações mais absurdas e enroladas que as voltas do pensamento do menino.
Sem solução a vida daquela família continuava assim, com Ourives abismado com a confusão toda e desânimo de seus pais.
O problema é que de tanto pensar, Ourives acabava pensando alto achando que havia falado e que as pessoas eram surdas ou não davam importância para suas palavras.
Então o menino teve uma idéia mais brilhante que os pingos amarelos que caiam do céu. Pensou que se ninguém ouvia suas palavras, quem sabe olhassem para seus desenhos.
E Ourives começou a lapidar os sóis mais amarelos e brilhantes que todo o mundo vira até então!
Seus desenhos enchiam de um amarelo-ouro toda a parede azul do quarto, bem como enchiam os pais de Ourives de um orgulho bem vivo. Mas quão mais brilhantes eram os desenhos de Ourives, cheios de amarelos, laranjas, vermelhos, mais desbotado ficava o menino.
E eis que Ourives foi ficando fraco, adoecido, mas sempre de uma felicidade radiante. E lá foi de novo os pais do menino levando-o de um lado a outro para descobrir aquele desbotamento descabido. E os corações aflitos dos pais de Ourives ficaram ainda mais descompassados, ainda mais espremidos.
Uma noite, desanimados, na cama, prontos para dormir, os pais do menino ouviram uma gargalhada assim toda espalhada como quem faz cócegas até o outro chorar de rir. Mas os pais de Ourives paralisaram e não foi de graça, mas de medo. Sabiam que havia algo errado. E ouviram Ourives cantar de um pulmão cheio como nunca havia feito antes, como faz o galo ao anunciar o raiar do dia.
E assim se fez. Quando os pais de Ourives chegaram ao quarto do menino ele já não respirava: começava a esfriar. Mas o estranho é que um largo sorriso se espalhava na face do garoto como um gato preguiçoso a acordar. Foi então que eles entenderam que Ourives era o próprio sol. O sol da vida deles, e amaram-no como nunca num riso meio aberto, meio chorado, meio abraçado sob a cama do menino.
A partir de então, todas as manhãs que se seguiram, os pais de Ourives acordavam antes de o dia raiar como num ritual para ver o filho, acordando.
"Mas a noite desmanchava-se no oriente, cheia de flores amarelas e vermelhas. E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes, erguiam no ar a vigorosa cabeça, e começavam a puxar as imensas rodas do dia"- Cecília M. z * m <3 ***********************
La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez
"Una realidad invisible anda por todo el subterráneo, cuyo estrepitoso negror rechinante, sucio y cálido, apenas se siente. Todos han desejado sus periódicos, sus gomas y sus gritos; están absortos, como en una pesadilla de cansancio y de tristeza, en esta rosa blanca que la negra exalta y que es como la conciencia del subterráneo." - La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez
Mirian, eu deixei um livro aí chamado "Espinho de Marfin", acho que você deveria lê-lo. Você e a Marina Colasanti têm algumas semelhanças,seria uma ótima fonte de inspiração, se bem que tu não precisa né!!!
ResponderExcluirAdorei o texto, só pra variar.^^
Vou pedir pra nossa pequena então!
ResponderExcluirEu adooooro a Marina, muito mais que
o marido dela, inclusive!
Achei o que penso ser apenas um trecho do "o Doido da Garrafa", achei legal.Se tu achar um link com ele inteiro, me manda que eu lerei.
ResponderExcluirMirian, quando tu estiver de férias, e se quiser, me manda o teu e-mail que eu te mando umas outras coisas que não pretendo postar no blog.
É que tem um conto que tô escrevendo que tá ficando grande grande, daí você pode fazer uma critica severa encima dele.=P
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