PRETO NO BRANCO
Era uma imensidão sem fim. O branco da neve expressava o que raramente se faria palpável em outras situações: o nada total e completo era também o todo e o tudo.
Oliver e Clara. Eles e mais nada. Dois pingüins roliços e felizes caminhando num infinito branco até cansar. E quando cansavam, paravam. E quando paravam se olhavam num fundo tão fundo e sem tamanho, quanto aquele branco sem fim que os rodeava. E aí então, o preto das retinas ― um pingo no meio do vazio ― se tornava o tudo e manchava o céu e manchava o gelo e coloria a vida dos dois exatamente com a ausência delas: era o preto e o branco, o tudo no nada, mas eles nem precisavam de mais nada... Pelo menos era o que pensavam.
Clara adorava sardinha. Oliver salmão. Clara preferia a noite. Oliver o liso do chão. Clara se animava toda cada vez que mergulhava, que passeava, que comia, que abraçava Oliver. Oliver se animava em assistir Clara.
Isso não só bastava porque era tudo o que ele tinha, mas porque se Oliver pudesse escolher qualquer riqueza, qualquer dádiva, qualquer coisa nesse mundo IN-TEI-RO, ele escolheria ser exatamente o que é: O pingüim mais feliz de toda a Antártida com a companheira mais interessante e incomparável.
Oliver achava a coisa mais incrível o jeitinho que ela caminhava e balançava o seu corpinho numa dança tímida. Adorava as milhares de histórias que ela lhe contava até tarde, até dar sono, até as estrelas se espreguiçarem ao raiar do dia. Acho que isso era felicidade. E se não fosse, ele gostava assim mesmo, não fazia questão que nada mudasse.
Ah Oliver... Todo pingüim apaixonado se esquece de um fato tão óbvio... Se a vida que tens lhe basta porque há essa companheira incrível ao seu lado, é porque ela não é comum. E em barriga de pingüins não comuns roncam sonhos quentes. Você já deveria prever que foi exatamente o espírito aventureiro dessa pequenina que te encantou, desde o primeiro gracejo, que vai tirá-la de ti. E que lugar nenhum consegue prender garotas assim. Nem lugar, nem ninguém.
E assim foi. Deu dor no coração de Clara tendo que voar pra um longe mais quente e deixar o coraçãozinho de Oliver cada dia mais frio. Não é que ela o amasse menos. Na verdade, não havia culpados. Ela só precisava demais de mais. De um mais lá na América do Sul. Precisava conhecer outras cores, coisas, pessoas, amores.
Ela se apaixonou por uma música linda, triste, que ora parecia um choro, como de um gato que quando emite sons, nunca são em vão. Ora com seu próprio choro encolhida num cantinho, olhando a lua e lembrando de quando a olhavam a dois. Deu uma saudade apertada aquele dia de Oliver. E ela quase pegou o caminho de volta. Mas ainda não estava pronta. Prometera um dia voltar buscá-lo. Não hoje.
Clara leu todos os livros que explodiam borboletas em seu estômago. Aprendeu que as músicas que a abraçavam era blues e jazz. Visitou os lugares mais bizarros e lindos. Volte e meia dava vontade de contar tudo pro Oliver. Clara experimentou todos os peixes que pode. Aprendeu novas danças... E até conheceu novos amores. Pra cada um, dedicou um carinho único. Mas o difícil é que cada vez que tentava um novo amor, notava que não havia pingüim que se encaixasse assim, tão bem. Oliver nem era tão bonitão. Era meio bobo e adorava irritá-la até ela dar umas bicadas nele. Aí ele pedia desculpas, ela ria e os dois se abraçavam e viravam um só.
A quentura da vida nova nunca acalmou, era indescritivelmente bom tudo o que ela havia conseguido até então. Mas às vezes acontecia uma coisa estranha que passou a acontecer com mais e mais freqüência. Era uma inquietude, um desassossego, uma vontade de-não-sei-o-quê que não passava nunca. E quando essa ansiedade a acordava no meio da noite, ela pegava o telefone na mão, ligava pro Oliver, chorava horrores prometendo voltar pra vida deles no dia seguinte.
Não. Mentira. Ela não conseguiria desistir de seus sonhos, sonhos que eram só seus, nem mesmo pelos sonhos que sonhara a dois. Ela acordava com o coração palpitando, com uma tristeza que doía demais, demais, demais. Respirava fundo e não dormia mais, ficava pensando por horas em tudo que a vida lhe proporcionara. E descobriu que morria de saudades da paz, do sossego que o seu Oliver, sempre seu, lhe causava. Não tinha certezas, só dúvidas. Ligou a luz, acendeu um cigarro, abriu uma latinha de sardinhas e uma garrafa de vinho, ligou a TV e lá ficou até o sol engatinhar. Deu saudade da sardinha que Oliver pegava fresquinha toda manhã.


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