La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez

"Una realidad invisible anda por todo el subterráneo, cuyo estrepitoso negror rechinante, sucio y cálido, apenas se siente. Todos han desejado sus periódicos, sus gomas y sus gritos; están absortos, como en una pesadilla de cansancio y de tristeza, en esta rosa blanca que la negra exalta y que es como la conciencia del subterráneo." - La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Insatisfação Crônica


Pedro tinha os braços maiores que o corpo. Pedro tinha muita pressa. Passava os dias trabalhando, estudando para o dia em que teria alcançado todos os seus objetivos, então, Pedro pararia. Pararia para viver. Enquanto não parava, Pedro ia seguindo com seus longos braços abraçando tudo que podia para dar jeito, para consertar, para cuidar, para ajudar, para sofrer junto, para se preocupar, para amar.


Amar Pedro bem sabia. Era sua maior virtude e mais intenso defeito. Quando Pedro se apaixonava se entregava total. Sua primeira grande paixão fora pelos personagens de cinema, de romance e das músicas. Pedro acreditava que seria uma estrela do rock.

Depois veio a primeira namoradinha do colégio. Namorico rápido, mas de emoções intensas, com juras de amor e ódio eterno. Eis que veio o que Pedro considerou o grande amor de sua vida e seu carma. Um namoro longo, cheio de complicações, de vai-e-vem, de madrugadas intermináveis ao telefone com brigas, pontapés, desconfianças e também, de muitas aventuras. Achou que com essa seria para valer... tantos anos. Mal sabia Pedro que encheria mãos e dedos com relacionamentos que acabavam quase todos do mesmo jeito.

Pedro se dá conta de um problema muito difícil de ser solucionado: insatisfação crônica. Nunca, nem por um segundo Pedro conseguia se lembrar de um momento em que deitara a cabeça no travesseiro e dissera para si mesmo –“como sou feliz, não preciso de mais nada.”. Ele bem que tentava, ninguém pode negar, mas logo ia começando uma coceira na pontinha do estômago. Aquela coceira mansinha logo se tornava insuportável com vários planos mirabolantes surgindo e emergindo pelos seus poros. Tão insuportável que Pedro logo tinha que dar um novo passo.

Deixava a namorada, mudava de emprego, de cidade, de cabelo. Mudava de casa, de esquina, de gosto. Só não mudava de rosto. O rosto mantinha os mesmos velhos traços, que não eram tão velhos, Pedro quase não tinha rugas. Elas só apareciam em dois momentos: ao sol e ao pensamento. Depois sumiam.

Pedro tinha sim rugas de preocupação: e se não der certo? E se eu não conseguir? E se ele morrer? E se eu falir? Mas elas logo davam lugar às lágrimas que lhe saltavam dos olhos puxados por uma lembrança bonita de um avô querido ou de um cheiro de café. Ou mesmo por um filme incrível desses que fazem a gente desejar com todas as nossas forças ser igual ao mocinho ou ao vilão. É... Pedro era bom moço, de um coração mais largo que o mar, mas tinha uns olhos que só poderiam ser mesmo de vilões. Eram olhos grandes, fortes, castanhos, com longos cílios curvados que ao mirarem, paralisavam.

Pedro aguardava o fim do próximo relacionamento. Cansava tão rápido das pessoas que achava a solidão o presente mais confortável do mundo inteiro. Por isso mesmo amava a profissão efêmera de fotógrafo. E como sabia captar o momento exato. Para ele, a vida seria perfeita, fosse um mural de fotos todas mágicas, mas sem conexão, sem inter-relação.

Isso poderia parecer frio, mas a verdade é que Pedro se preocupava tanto com os outros que esquecia de si. Esquecia até de ser feliz e às vezes de fazer xixi! Maldita retenção de líquidos! Precisava mesmo tomar mais chá verde.

Mas teve um dia que Pedro estava namorando novamente um caso antigo. E a menina ora insegura, ora corada, dona de si; conta de supetão ao Pedro que ele será pai. Aquilo foi mesmo um golpe, um choque, Pedro achou que vomitaria seu coração e pulmões. E agora? Como alguém que se sente ainda tão filho pode ser pai?

E a barriga foi crescendo, e os nomes surgindo, e as roupinhas acumulando e os planos lindos nascendo. Pedro era, enfim, pai. E aquele desassossego que apertava todo Pedro num nó interno, fora se desmanchando, amolecendo... E Pedro descobrira enfim, que não possuía braços enormes não, só possuía braços de quem nasceu para abraçar os sonhos e ser carregado pela vida, só possuía braços de pai.

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