Acordou de sopetão com um grito: MARIA! - Que se estendeu por toda a casa ecoando dentro de sua cabeça por uns 30 segundos. - Coração galopando no peito como um animal selvagem prestes a explodir a pele que o separa do mundo. Sentou-se na cama, os lençóis estavam encharcados, o cabelo desalinhado.
Apertou forte a mão contra o peito na tentativa de domar aquele movimento e acalmando-o acalmar-se a si mesma. Já era manhã, mas o celular ainda não havia despertado. Olhou em volta e sentiu-se tão intimamente observada que resolveu de imediato cobrir-se com o roupão atoalhado.
Levantou e sentiu-se novamente observada e pior: seguida. Precisava de algum tipo de som para se distrair. Pensando nisso enquanto caminhava em direção à televisão algo caiu na área de serviço. Engoliu o grito seco que não aconteceu, que fora castrado por um calafrio molhado que percorria toda sua espinha.
Respirou fundo, pensou em coisas boas. Ligou a TV e começou a trocar de canal. A boca estava muito seca. Foi até a cozinha, preparou um café preto, sentou-se no sofá vermelho e acendeu um cigarro light. Tragou como se fosse a última ação que precedesse a morte.
A morte. Não achava que a temia, temia o hiato que a separava da vida concreta. O buraco, a margem e as coisas nela contida, sempre à espreita como cães magros de bar em bar aguardando migalhas, famintos.
O amargo do café se concentrou ao fundo da língua colorindo-a de um marrom claro. Desistiu da TV. Desistiu de resistir. Foi ao banheiro. Acompanhada? Despiu-se, tomou um banho quente, demorado, como nunca, até a pele dos dedos murcharem. Com o corpo ainda molhado espalhou sem economias o óleo de banho que tanto gostava. Terminou de se secar e vestiu-se.
Não iria trabalhar hoje. Não iria estudar hoje. Não iria seguir a rotina. Não, hoje. Pegou um ônibus que a levou até uma praia onde nunca estivera antes. Caminhou sem pressa, chinelos na mão, óculos escuros e a bolsa, tudo em seu devido lugar. Os cabelos soltos caíam volte e meia sob a face. Procurou um canto, estendeu a canga e sentou-se.
Fechou os olhos como nunca. Respirou o mais fundo que pôde. O cheiro do mar parecia niná-la num carinho de colo de mãe. O barulho das ondas quebrando nas pedras puxava da memória canções que a confortavam como uma xícara de café no inverno.
Estava tão exausta, tão cansada que mal sabia o que fazer. Então decidiu não fazer nada. Ficou naquela posição, olhos fechados, alma aberta por pelo menos uma hora. Sentia seu corpo trepidar, esquentando e balançando junto com o vento, era inevitável. As mãos e pernas formigavam num calor amortecido, mas que não era de todo desconfortável, era até revigorante.
Sentiu uma boca entreaberta lhe falar bem próxima ao ouvido. Tão próxima que podia sentir o calor do hálito. Abriu os olhos. Não havia ninguém. Olhou para o outro lado e viu uma criança se aproximando, vindo em sua direção.
Os olhos fortes, azuis, fixados aos seus. Foi se aproximando sem dizer uma palavra sequer, sentou-se no pedaço da canga que restava. Retirou duas maçãs da bolsa de pano. Uma verde e outra vermelha. Mordeu com gosto a verde, o suco escorria-lhe a face rosada daquela pele tão fininha. Ofereceu-lhe a vermelha. Um gesto tão imperativo que não ousaria negar. Mordeu também e saboreou a maçã lustrosa, observando ainda o garoto, que olhava agora para o mar.
Ficaram assim, lado a lado a tarde toda. Quando o sol começou a se pôr, o menino, ainda sem uma palavra, pegou as duas mãos dela. Olhou as palmas, o verso, fechou-as e esquentou-as com as pequenas mãozinhas de pele macia. Ajeitou o cabelo daquela moça aflita e encantada, assim, atrás da orelha. Com os olhos tão fixos nos seus, Maria sentia como se tivessem conversado por horas e horas e horas.
ACORDES! Acordou de sopetão com um grito. Que se estendeu por toda a casa ecoando dentro de sua cabeça por uns 30 segundos. - Coração galopando no peito como um animal selvagem prestes a explodir a pele que o separa do mundo. Sentou-se na cama, os lençóis estavam encharcados, o cabelo desalinhado.
Apertou forte a mão contra o peito na tentativa de domar aquele movimento e acalmando-o acalmar-se a si mesma. Já era manhã, mas o celular ainda não havia despertado. Olhou para mesinha ao lado de sua cama e petrificou-se ao ver uma maçã verde e outra vermelha, mordidas.
Mas hoje não sentira medo. Hoje sentira que algo havia mudado. Não se sentia mais só do lado de cá. As mãos estavam quentes. Passou muito do seu perfume preferido: Acordes, abriu a janela e estava chovendo. Não iria seguir a rotina. Não, hoje. Pegou o guarda-chuva e saiu, assim, sem rumo, à procura dela mesma.
"Mas a noite desmanchava-se no oriente, cheia de flores amarelas e vermelhas. E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes, erguiam no ar a vigorosa cabeça, e começavam a puxar as imensas rodas do dia"- Cecília M. z * m <3 ***********************
La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez
"Una realidad invisible anda por todo el subterráneo, cuyo estrepitoso negror rechinante, sucio y cálido, apenas se siente. Todos han desejado sus periódicos, sus gomas y sus gritos; están absortos, como en una pesadilla de cansancio y de tristeza, en esta rosa blanca que la negra exalta y que es como la conciencia del subterráneo." - La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez
Nenhum comentário:
Postar um comentário