La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez

"Una realidad invisible anda por todo el subterráneo, cuyo estrepitoso negror rechinante, sucio y cálido, apenas se siente. Todos han desejado sus periódicos, sus gomas y sus gritos; están absortos, como en una pesadilla de cansancio y de tristeza, en esta rosa blanca que la negra exalta y que es como la conciencia del subterráneo." - La negra y la rosa - Juan Ramón Jiménez

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mia, JASMIM

Calça jeans, all star verde e uma camiseta com alguma figura retrô desenhada no centro. Os cabelos espalhados, emaranhados em pequenos galhos secos, os olhos fechados e o pulmão num exercício calmo e profundo de abrir e fechar. Os braços e pernas relaxados, abertos, a grama pinicando onde toca a pele. Podia ouvir comunidades de formigas caminhando embaixo e em sua volta. Podia ouvir a grama crescendo só para lhe fazer macia a cama. Por um momento imaginou formigas transitando de uma orelha a outra, passeando pelo seu corpo em túneis e voltas, tão entregue estava àquele instante, achava justo ceder-se completa ao espaço. Imaginou joaninhas coloridas protagonizando um balé naquele gramado da cor do seu tênis.

Inspirou mais fundo e um aroma delicioso de jasmim lhe puxou lágrimas pra fora da lembrança. O cheiro do jasmim amanhecido e regado pelo orvalho lembrava seu pai. Manhãs que começavam com o sol ainda engatinhando e a chaleira já cantando na boca do fogão. O sabor amargo do chimarrão tinha gosto de colo e perfume de nós nos cabelos formados de tanto se enrolarem nos dedos de seu pai. Ele sempre a convidava para cheirar de perto os jasmins. Ela sempre pedia colo. Quando era pequena deixava as flores secarem para num ritual singular arrancar uma a uma, como se nesse gesto devolvesse vida à planta. Mas não era da árvore a graça de desdobrar encantamento, eram das flores secas, achava cada uma um singelo bouquet de uma delicadeza indescritível, o melhor dos perfumes desabrochado de presente toda manhã em sua janela. Da janela podia contemplar também o gramado como um tapete de veludo verde convidando a uma preguiça vespertina e o céu como um quadro de Monet, açucarado.


As lembranças tomaram conta de sua cabeça repentinamente, ganharam força, emocionaram, apertaram-se dentro dela provocando um frio e um arrepio que pareciam competir em uma corrida frenética que percorria todo seu interior. Abriu lentamente os olhos e cegou-se por alguns instantes, fechou-os novamente, lacrimejando reabriu e sentiu as nuvens a um palmo de sua face, o céu estava de um azul primavera com nuvens branquíssimas infladas como doces de algodão, macias, espalhadas por todo canto.

Sentiu uma tristeza tão calma e tão funda que sequer teve tempo de mudar a expressão, as lágrimas começaram a se jogar como suicidas de sua face. Quase podia escutá-las molhando a grama e depois a terra. Imaginou-as invadindo seus ouvidos e afogando as formigas.

Não sabia o porquê desse sentimento, mas cada vez mais aquela angústia tomava corpo e como que invadindo o seu, crescia dentro, imperativa, rígida... Sentiu vontade de correr, sentiu vontade de gritar, sentiu mais vontade de chorar e de se encolher e de se cobrir e de silenciar.

A vontade mais funda era a vontade da paz que se tem quando se é criança. Do aconchego e segurança do colo do pai, das histórias da mãe, do café da vó, do doce de leite do vô, do cheiro tão típico da casa da tia, do cheiro de mato picado atrás de casa quando brincava de ‘casinha’, o choro do irmão pequeno que mal sabia pronunciar as sílabas de seu nome, das brincadeiras com as crianças da rua, dos desenhos de manhã, da pipoca com refrigerante e filme e cobertor numa tarde fria. Saudade de alguém que já se foi, saudade de um tempo que acabou.

Fechou e abriu novamente os olhos. Mas estes já não eram os mesmo e a angústia transformou-se em força e a saudade em lembrança, e a lembrança em carinho. A tristeza foi-se e nasceram alguns espinhos, mas tantos, tantos, tantos jasmins, que a sala toda se embriagou de um perfume aveludado.

Era uma mulher com gracejos de menina e se orgulhava disso.

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