Os pés brancos e macios do inverno estavam agora despidos, murchos, pele fina caminhando sobre aquele amontoado de pedregulhos que iam aos poucos perfurando as camadas da epiderme, manchando o que antes era um monocromático marrom, agora, de um vermelho vivo, perfumado.
Não pensava na dor, a dor maior não era a física, essa bem sabia que passaria, com mais ou sem demora. Difícil era sangrar por dentro. Seguiu naquela peregrinação solitária sem a demanda da platéia para testemunhar um auto-flagelo, a penitência era aquietar sua angústia que ladrava, esperneava, rangia os dentes da boca do estômago, perfurava todos os órgãos internos – um a um – lentamente, numa morte assistida e sem cura.
A cura era a morte, a morte apenas. É na morte que se depara com o clarão do mundo, com a grande verdade, com cálice sagrado e os segredos da humanidade, com as respostas para todas as perguntas perseguidas ao longo dos anos – sejam muitos ou poucos – vividos, mas o certo, é que provavelmente o que se verá é um hediondo, besta: NADA, gigante, gargalhando, cuspindo saliva na face de quem o encara.
Caminha-se e busca-se a vida toda, entre o bem e o mal chegar ao dia em que nos depararemos com a verdade e ei-la: o absoluto nada. E ao contrário do senso comum, pior que sentar no colo do capeta é não ter no que se agarrar, entre céu e inferno, entre os piores pesadelos, há uma coisa aterrorizantemente pior: o nada. Só o nada nadifica. Disso bem sabia... Entre voltar à origem preferiu a cegueira. Deu um passo para trás e assim refez todo o caminho de volta, cabisbaixo, recolhendo gota-a-gota, titilando em seus ouvidos, aquilo que já não estava mais ali. Já não era.
A maneira como faz os sentimentos aflorarem foi muito bem constrida.
ResponderExcluirPs: Você e o Arthur reviveram seus blog "muito" e ao mesmo tempo, por isso dei um jeito de reviver o meu também, mas só porque tava passando vergonha.=P Abraço Miriam